Que bom seria
Se o acaso em ironia
Me tornasse poeta
Por encanto ou magia
As palavras que diria
Seriam música, no entanto
Mesmo amargas ou sutis
Revelariam tudo o que quis
Quem me dera
De mim transpirasse
O dom do poeta e do sábio
Que como pintor hábil
Colore as palavras na tela
Ou com argila modela
Todo sentimento indizível
Ah, Quintana, Pessoa e Bandeira
Invejá-los nem que eu queira
Escrevo como quem caçoa
Do próprio dom que me beira
Arrisco apenas um sonho
D'um insensato pretendente
Embarcando nas palavras
E remando contra corrente
Com as velas flamulando ao vento
Que teima em soprar transverso
Deixando o barco perdido
Numa ação sem movimento
À margem da inspiração
Navego quase imerso
Com sorte encalho no verso
Ou naufrago na rebentação

Autor: Bernardo Bessler
Fundo Musical: Segundo movimento do
Duo número 2 de W. A. Mozart
Bernardo Bessler, violino
Christine Springuel, viola
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